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Fiocruz: estudo reduz riscos do tratamento contra leishmaniose cutânea

Estudo desenvolvido na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) abre nova perspectiva de tratamento e cura para pacientes com leishmaniose cutânea, com altos nĂ­veis de evidĂȘncia cientĂ­fica.

Por REDAÇÃO em 07/06/2024 às 09:15:03

Estudo desenvolvido na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) abre nova perspectiva de tratamento e cura para pacientes com leishmaniose cutânea, com altos nĂ­veis de evidĂȘncia cientĂ­fica. A doença, transmitida pela picada de um inseto que se alimenta de sangue, tem tratamentos antigos e que podem ser tóxicos para o coração, fĂ­gado e pâncreas.

"A grande luta da gente nesse trabalho é que não faz sentido que pessoas venham a falecer por tratamento de uma doença que habitualmente não mata. E o que a gente tem para tratar são esses remédios muito tóxicos", explicou à AgĂȘncia Brasil o dermatologista Marcelo Rosandiski Lyra, pesquisador do Laboratório de Pesquisa ClĂ­nica e Vigilância em Leishmanioses do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), da Fiocruz. O especialista destaca que mesmo para aquele paciente que não venha a óbito, as complicações do tratamento convencional são muito grandes. "Porque o paciente também sofre o tratamento, tem dor muscular, dor de cabeça. Pode ter uma série de complicações relacionadas ao tratamento mesmo".

Coordenado no Rio de Janeiro por Lyra, o estudo propõe uma mudança no tratamento para leishmaniose cutânea, substituindo o tratamento convencional por intralesional, ou seja, com aplicação do remédio na própria lesão. No Rio, foram sorteados dois grupos de pessoas com leishmaniose cutânea que foram tratados de forma diferente e monitorados durante dois anos. "Monitoramos durante esse perĂ­odo todos os efeitos que eles tiveram e o doente volta ao ambulatório diversas vezes. Ele é visto com muito cuidado". Segundo Lyra, o trabalho mostrou uma força de evidĂȘncia muito grande. "Ele foi capaz de provar que é um tratamento em termos de eficĂĄcia de 83% de cura, enquanto o tratamento convencional tem 68%. E em termos de segurança e diminuição de efeitos colaterais, foi goleada".

O estudo contou com apoio de vĂĄrias instituições, como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade de BrasĂ­lia (UNB), a Faculdade de Medicina Tropical de Manaus, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), entre outras, o que, para Marcelo Lyra, é importante para dar um carĂĄter nacional aos resultados.

Doença tropical

A leishmaniose é uma doença causada por protozoĂĄrios pertencentes ao gĂȘnero Leishmania e transmitida pela picada de um inseto hematófago [que se alimenta de sangue] da famĂ­lia dos flebótomos, conhecido popularmente, entre outros nomes, como mosquito-palha. A leishmaniose é uma doença que ocorre nas regiões tropicais, em paĂ­ses em desenvolvimento, e pode acometer a espécie humana e outros animais.

Existem dois tipos de leishmaniose, a cutânea ou tegumentar, que provoca feridas na pele e mucosas, e a visceral, que acomete órgãos internos e tem como principal hospedeiro o cão. Não hĂĄ, contudo, transmissão direta entre pessoas e pessoas e cães. A leishmaniose visceral é uma doença extremamente grave. "Se a pessoa não tratar, morre até 90% sem tratamento, porque pega os órgãos internos", explicou Lyra. JĂĄ a leishmaniose cutânea pode pegar, além da pele, mucosas do nariz, da boca. "É uma doença grave porque, às vezes, o paciente faz lesões desfigurantes, faz feridas muito grandes na pele. Mas, embora seja desfigurante nos casos mais graves, a doença não costuma ser letal. É uma doença que tem gravidade, tem impacto social importante, mas dificilmente a pessoa vai morrer em decorrĂȘncia dessa doença".

Manual

O Ășltimo manual do Ministério da SaĂșde que regula as normas de tratamento da leishmaniose é de 2017. Um novo manual deverĂĄ sair até 2025. O anterior jĂĄ incluĂ­a o tratamento intralesional, mas ainda com muitas restrições, indicado somente para lesões bem pequenas e Ășnicas. Lyra deseja ver incluĂ­do no manual o novo tratamento para lesões maiores, em pacientes com nĂșmero maior de lesões. "Como era muito restrito (no manual anterior), aquilo praticamente ninguém fazia. Ampliando as recomendações, a gente vai contemplar um nĂșmero maior de pessoas".

Para o pesquisador, em termos de saĂșde pĂșblica, é positivo ver mais gente usando o tratamento intralesional, jĂĄ que diminui a letalidade e os efeitos colaterais. "O tratamento é mais barato porque, como é feito direto sobre a lesão, acaba que a quantidade de remédio colocado é em torno de 10% a 15% do que se faz em um tratamento convencional. Além de tudo, é uma economia. É tudo que o Ministério da SaĂșde queria: tem um remédio que é mais barato, mais seguro, tão ou mais eficaz. JĂĄ o tratamento convencional não reverte em benefĂ­cios para ninguém".

O trabalho do dermatologista e pesquisador da Fiocruz foi premiado no 76Âș Congresso Brasileiro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). O artigo cientĂ­fico "Um Ensaio Randomizado, Controlado, de Não Inferioridade e MulticĂȘntrico de Tratamento SistĂȘmico vs Intralesional com Antimoniato de Meglumina para Leishmaniose Cutânea no Brasil", foi também considerado uma das dez publicações mais importantes na ĂĄrea de doenças parasitĂĄrias no Congresso Europeu sobre Microbiologia ClĂ­nica e Doenças Infecciosas (ECCMID), ocorrido recentemente em Barcelona, Espanha. O estudo foi reconhecido por minimizar os efeitos colaterais do tratamento convencional da leishmaniose e, portanto, evitar mortes, reduzir morbidade e ainda com um custo mais baixo. O trabalho foi publicado em 2023 na revista Clinical Infect Disease, especializada em doenças infecciosas. As premiações, segundo Marcelo Lyra, dão credibilidade para fazer no paĂ­s as mudanças necessĂĄrias.

Lyra lamentou que não haja interesse de grande parte da comunidade internacional sobre o tema porque se trata de uma doença de paĂ­ses pobres, até porque esse tipo de tratamento não reverte em dinheiro para ninguém. Reverte para a saĂșde pĂșblica ao diminuir custos. Como não se vai vender remédios ou vacinas, o tema não possui grandes fomentadores desse tipo de pesquisa, explicou.

Paciente

Fernando Correa Losada, engenheiro civil e advogado, 65 anos, foi encaminhado para a Fiocruz, por intermédio do Serviço de Epidemiologia Municipal, em setembro de 2023, com suspeita de leishmaniose. Ele apresentava lesão ulcerada no dorso da mão esquerda sem dor ou prurido. Foi feito uso de antibioticoterapia, sem sucesso clĂ­nico. Na consulta realizada no mĂȘs seguinte na Fiocruz, Marcelo Lyra fez a Ășnica biópsia que confirmou a doença.


Após o resultado positivo, o tratamento de Losada começou em 6 de novembro do ano passado. Como ele tem bloqueio de ramo esquerdo do coração, fez tratamento intralesional, porque o tradicional era contraindicado. "A resposta foi excelente", garantiu o paciente.


Ele informou que no Ășltimo exame de sorologia para leishmaniose, realizado no inĂ­cio de fevereiro deste ano, o resultado foi não reativo. "Estou curado", comemorou Losada. O acompanhamento que terĂĄ que fazer engloba consultas e exames de sangue, com intervalos maiores.

Fonte: AgĂȘncia Brasil

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